Plínio para presidente – uma chance pra coerência (ou A intransigência da incoerência)
Démerson Dias*
Existem alguns debates em que credenciais são interessantes. Cargo disso, título daquilo, claques de acolá. Tirando a claque, Plínio de Arruda Sampaio possui credenciais invejáveis para qualquer legenda de esquerda.
Se credencial vale para pensar em que medida Plínio pode ou não representar uma opção deste partido, podemos invocar a reunião que inaugura a convocatória da então Esquerda Socialista e Democrática naquele hoje aparentemente longínquo 19 de janeiro de 2004. Ali estão alguns dos compromissados de primeira hora desta nossa iniciativa partidária. Vários daqueles apoiam e delegam, pois, suas credenciais à candidatura Plínio.
A direção do PSOL, não por vontade de suas bases, aliás contrariando decisão Congressual, entabulou diálogo com Marina Silva, hospedeira de ocasião de uma solução partidária confusa. Felizmente, a realidade foi acachapante e a direção do PSOL desistiu a tempo, ou poderia mais adiante ter que reconhecer que o interesse no apoio era unilateral. Tínhamos ali um plano B do lulismo (Marina) associado a um plano B do tucanato (PV). Uma conjunção política que custaria ao PSOL provavelmente sua parcela de credibilidade como alternativa de esquerda.
Ocorre que o debate de credenciais, se não equivocado, não deve trilhar o caminho das personalidades, mas da coerência. É certo que Babá e Martiniano, bravos companheiros, representam resposta coerente. Mas, comparado ao apoio à alienígena candidatura do PV, Plínio é PSOL desde criancinha.
Às vezes é preciso algum esforço para alcançar se a intenção de algumas formulações é simplesmente causar confusão ou se as pessoas, de fato, acreditam que qualquer argumento é suficiente para sustentar um debate sério. Tentar deslegitimar a iniciativa que se aglutinou em torno de Plínio alegando ofensa a algum rito esotérico de trâmite partidário só faz sentido se entendermos o PSOL como uma espécie de seita, em que as regras que valem são conhecidas apenas por uns poucos e reveladas apenas conforme o galgar de degraus de ordenamento. Bem, se é assim, retorno a meu argumento preliminar, e vamos ouvir as “mães” e “pais” que ajudaram a gestar o partido.
Mas não é disso que se trata e, por coerência, é preciso não calar.
Há uma polêmica congênita no PSOL que, um dia, ainda pode representar sua extinção. Com que enfoque encaramos o processo eleitoral? E em que bases se sustenta de fato nossa legitimidade?
As candidaturas definem o PSOL ou o PSOL define as candidaturas?
Qual é o cálculo político que utilizamos para nos constituir como alternativa política?
Esse, para mim, ainda é o cerne do debate. Com todo o respeito que merecem os demais companheiros desta legenda que tentamos arduamente sustentar, a [pré-]candidatura Plínio, se não é a mais significativa referência do que pretende vir a ser o PSOL, jamais poderá ser desconsiderada como uma das principais. Justamente porque a [pré]candidatura Plínio é respeitada inclusive para além dos muros partidários e já é, hoje, a candidatura que mais diálogo estabelece com os setores que fazem resistência histórica ao neoliberalismo. E faz isso sem qualquer tergiversação pós-lulista, subambientalista ou protossocialista.
Plínio, uma [pré-]candidatura do PSOL que merece e inspira respeito. E socialista, com certeza.
Démerson Dias é servidor do Judiciário Federal no Estado de São Paulo e dirigente do SINTRAJUD.



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Congratulo-me com o texto de Démerson Dias sobre a legitimidade da candidatura de Plínio de Arruda Sampaio. Ouvi de companheiro querido, meio contristado, que Plínio não era o candidato ideal. Não disse, mas subentendeu, que era o possível. Mas o que é o candidato ideal? É aquele que é “amamentado” durante décadas, essencialmente por ser uma espécimen material da classe operária, que nunca se disse de esquerda, “um cara” segundo Obama, popular, que subindo ao poder foi buscar a popularidade nos confins da pobreza sobre a base do populismo? Aquele que, por sua mitologização enquanto operário, desviou a esquerda das tarefas democráticas pós-ditadura como a Verdade e a Justiça em relação aos crimes da ditadura? Ou o companheiro, um amigo, que não engana, não mente, que não concilia com a enganação, que para aqueles que ainda tem o socialismo como horizonte, quer colocar em pratos limpos tudo aquilo que seria possível fazer agora para tirar o país do atual estado de barbárie?